Memórias sobre a dor

alteridade, autolesão e escrita

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5752/P.2358-3428.2025v29n66p472-501

Palavras-chave:

autolesão, escrita, acontecimento, alteridade, discurso

Resumo

As autolesões caracterizam-se como cortes e outros ferimentos realizados na própria pele. Partindo da hipótese de que a linguagem – neste caso, em seu acontecimento escrito – pode ser um lugar privilegiado para a significação da dor, o objetivo deste estudo foi investigar possíveis marcas de alteridade (entre a atualidade e a memória discursiva) na representação escrita da autolesão, ou seja, no acontecimento (escrito) sobre a autolesão. Sob enfoque linguístico-discursivo, no qual a escrita é entendida como acontecimento, ou seja, como “ponto de encontro entre uma atualidade e uma memória” (Pêcheux, 2015, p. 16), foi observada a relação de alteridade entre o que se mostrava na materialidade linguística dessa escrita e as formações ideológico-inconscientes que constituíam/determinavam o que emergia e o que era apagado nela. Compuseram o corpus 29 acontecimentos escritos por uma adolescente que realizava autolesões, atendida por uma fonoaudióloga em um Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSij). Em 12 acontecimentos, as autolesões foram materializadas linguisticamente. Destes, em 07, a escrita as revivia e, em 05, as ressignificava. Na atualidade dos acontecimentos, foram encontradas marcas de (sua) alteridade com: (i) os discursos da biomedicina, do emagrecimento do corpo e da tradição judaico-cristã da culpa; (ii) pré-construídos discursivos; e (iii) o sujeito terapeuta. A escrita pode ocupar, pois, conforme a hipótese que orientou a investigação, um lugar privilegiado para a significação dessa forma de dor – a autolesão.

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Biografia do Autor

Roberta Vieira, UNESP

É fonoaudióloga, graduada pela Universidade Estadual Paulista (UNESP/Marília). É mestre e doutoranda em Estudos Linguísticos, pela mesma universidade (UNESP/São José do Rio Preto). Tem 15 anos de experiência de trabalho na Rede de Atenção Psicossocial do Sistema Único de Saúde (SUS). É fonoaudióloga clínica (Clínica In-Verso) com experiência no atendimento de questões de linguagem em crianças e adolescentes. Vem se dedicando ao estudo das relações entre linguagem e dor psíquica. É integrante do Grupo de Pesquisas Estudos sobre a Linguagem (GPEL/CNPq), coordenado pelo Prof. Dr. Lourenço Chacon. Tem experiência na área de Fonoaudiologia, com ênfase em Linguagem e Saúde Mental, atuando principalmente nos seguintes temas: discurso, linguagem, enunciação, autolesões e adolescência.

Lourenço Chacon, UNESP

Cursou graduação em Letras Português Francês pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (1979), mestrado em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas (1985), doutorado em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas (1996) e pós-doutorado em Linguística pela University of Florida (1999), apoio FAPESP, e pela Universidade de Lisboa (2012-2013), apoio ProPG/UNESP. É livre-docente em Linguística em Fonoaudiologia pela Universidade Estadual Paulista - campus de Marília - em 2017. Foi membro da rede internacional de pesquisa Literacies in Different Fields of Knowledge, com financiamento CAPES-PrInt-UNESP (2019-2024). É líder do Grupo de Pesquisa "Estudos sobre a Linguagem", o GPEL, existente desde 1999 e cadastrado no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq. Integra, também, o Grupo de Pesquisa "Núcleo de Estudos em Aquisição da Linguagem", o NaLingua, também cadastrado no mesmo Diretório. É pesquisador do Grupo de Trabalho (GT) "Estudos em Aquisição da Linguagem" da Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (ANPOLL). Suas publicações incluem artigos em periódicos, capítulos de livro e livros, sobre os temas: (1) hesitações na fala infantil e (2) relações entre fonologia e convenções ortográficas na escrita infantil. Atualmente é professor aposentado da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, tendo atuado, nessa Universidade, no curso de graduação em Fonoaudiologia. Continua sua atuação no Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos e no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde e Comunicação Humana, ambos da UNESP. É, ainda, professor visitante do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Reabilitação, da Universidade Federal da Bahia.

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Publicado

31-12-2025

Como Citar

VIEIRA, Roberta; CHACON, Lourenço. Memórias sobre a dor: alteridade, autolesão e escrita. Scripta, Belo Horizonte, v. 29, n. 66, p. 472–501, 2025. DOI: 10.5752/P.2358-3428.2025v29n66p472-501. Disponível em: https://periodicos.pucminas.br/scripta/article/view/36206. Acesso em: 31 mar. 2026.