Mulheres Travestidas:

um percurso comparativo entre Diadorim de Grande Sertão: veredas e as mulheres no parlamento de Aristófanes.

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5752/P.2358-3428.2025v29n67p451-484

Palavras-chave:

travestimento, queer, gênero, retórica

Resumo

O presente artigo fará um percurso narrativo entre as personagens Diadorim da obra Grande Sertão: veredas de João Guimarães Rosa e as atenienses da comédia As Mulheres no Parlamento de Aristófanes, com o vislumbre de diálogo com a questão Queer tão pertinente em discursões atuais. Já que tanto Diadorim quanto as atenienses utilizaram do travestimento para entrarem no mundo masculino disfarçadas e através de sua retórica puderam convencer os homens da sociedade de seus períodos que poderiam ocupar lugares, antes proibidos para as mesmas, com a mesma perspicácia que os homens ocupavam.

Por certo, Maria Deodorina, travestiu-se como homem e passou a ser chamada de Diadorim. A personagem entra no bando de jagunços ao qual o pai da mesma pertenceu. Durante a narrativa da obra, a jovem convence todos ao seu redor que é um jovem cangaceiro. No romance, Diadorim tem local de fala e respeito de todos os cangaceiros os quais com ela se deparam.

De modo análogo, na comédia, Praxágora também usa da retórica para convencer as mulheres a lutarem para melhorar sua sociedade. Assim, todas as mulheres pegam as roupas dos maridos e comparecem à Assembleia. Como maioria, tem seu voto ganho e a partir daí construirão uma sociedade igualitária. Portanto, tanto Diadorim como as atenienses de Aristófanes foram Queers, pois eram estranhas, não agiram conforme as normas estabelecidas e também desafiaram o contexto ao qual o gênero se colocava dentro de grupos masculinos. Logo, elas ressignificaram e resistiram as normas sociais excludentes de suas sociedades.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Edinaura Linhares Ferreira Lima, Universidade Federal do Ceará

Doutoranda em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Mestre pela mesma universidade, com trabalho voltado para o estudo das relações entre os heróis da Ilíada de Homero e do romance Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa. Atualmente é professora efetiva da Secretaria de Educação do Ceará (SEDUC-CE), atuando na disciplina de Língua Portuguesa. Pesquisadora voluntária do Grupo de Estudos sobre Narração e Teatralidade no Mundo Antigo (GENTE).

Jean Paul Giusti, Université Lumière Lyon 2

Professor titular de literatura e cultura brasileira, e de tradução, do Departamento de Português, da Université Lumière Lyon 2, Jean-Paul Giusti obteve o doutorado em literatura brasileira pela Universidade de São Paulo (USP) e pela Sorbonne Nouvelle Paris III com uma tese sobre Machado de Assis e o Teatro (teatro, teatralidade/ teatralização nos romances, contos/ crítica teatral, e as peças teatrais). É Diretor do setor de Língua Portuguesa,  no Centro de Línguas de Lyon 2 Lumière e Professor de Língua transversal e de intercompreensão das línguas românicas no mesmo Centro.

Marcelle Pereira Santos , Seduc

Mestre em Letras com área de concentração em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Ceará . Possui graduação em Letras pela Universidade Federal do Ceará . Especialista em Língua Portuguesa - Literatura pela Universidade Estadual Vale do Acaraú.Trabalha com Tragédia grega e questões de gênero. Atualmente é professora - Secretaria da Educação Básica do Ceará.

Referências

ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. Nordestino: invenção do “falo” – uma história do gênero masculino. 2. ed. São Paulo: Intermeios, 2013.

ARISTÓFANES. As mulheres no Parlamento. Tradução de Maria de Fátima Souza e Silva. Coimbra: Instituto Nacional de investigação Científica, 1996.

ARISTÓTELES. Política. Tradução Antônio Campelo Amaral e Carlos Gomes. Belo Horizonte: Vega, 1998.

BUTLER, J. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução de Renato Aguiar. Rio de janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

CAMPOS, Karina Rocha. Pólis vs. Oikos: a investigação do papel feminino no drama grego. TCC do Curso de Letras. Unesp/Araraquara, 2015. Disponível em: chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/https://repositorio.unesp.br/server/api/core/bitstreams/6c7b2c2a-bfdc-4209-b5de-8602f7a71b76/contente. Acesso em: 04 de junho de 2025.

CANDIDO, Antonio. A personagem de ficção. São Paulo: Perspectiva, 2009.

CANDIDO, Antonio. Tese e antítese: ensaios 4. ed. São Paulo: T.A. Queiroz, 2002.

CUNHA, Euclides da. Os Sertões. Campanha de Canudos. São Paulo: Abril Cultural, 1982.

FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanáticos: gênese e lutas. 9ª Edição. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1991.

FERREIRA, Luiz Antonio. Leitura e persuasão: princípios de análise retórica. São Paulo: Contexto, 2010.

GALVÃO, Walnice Nogueira. A donzela-guerreira: Um estudo de gênero. São Paulo: Editora SENAC,1998.

GALVÃO, Walnice Nogueira. As Formas do Falso: um estudo sobre a ambiguidade no Grande Sertão: Veredas. 2ª Edição. São Paulo: Perspectiva, 1996.

MACHADO, Ana Maria. Recado do Nome: leitura de Guimarães Rosa à luz do nome de seus personagens. 1ªed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

MELLO, Frederico Pernambucano. Guerreiros do Sol: Violência e banditismo no Nordeste do Brasil. 2ª ed. São Paulo: A Girafa, 2004.

RIBEIRO, Hugues Costa de França. sexualidade, gênero e teoria Queer. Revista Brasileira de Sexualidade Humana. Vol 16, n.01, 2005. Disponível em: file:///C:/Users/Edinaura%20Linhares/Downloads/228Texto%20do%20artigo%20(enviar%20arquivo)-474-436-10-20200413.pdf. Acesso em: 03 de junho de 2025.

ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: veredas. 22 ed. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2019.

SANTOS, Julia Conceição Fonseca. Nomes de personagens em Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1971.

SPARGO, T. Foucault e a teoria queer. Rio de Janeiro: Pazulin; Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2006.

VERNANT, Jean-Pierre. Mito e religião na Grécia antiga. São Paulo, Editora Papirus, 2006.

Downloads

Publicado

31-12-2025

Como Citar

LIMA, Edinaura Linhares Ferreira; GIUSTI, Jean Paul; SANTOS, Marcelle Pereira. Mulheres Travestidas: : um percurso comparativo entre Diadorim de Grande Sertão: veredas e as mulheres no parlamento de Aristófanes. . Scripta, Belo Horizonte, v. 29, n. 67, p. 451–484, 2025. DOI: 10.5752/P.2358-3428.2025v29n67p451-484. Disponível em: https://periodicos.pucminas.br/scripta/article/view/36411. Acesso em: 15 set. 2026.