Guimarães Rosa e o canto das sereias
DOI:
https://doi.org/10.5752/P.2358-3428.2025v29n67p314-343Palavras-chave:
Guimarães Rosa, canto das sereias, voz, Grande sertão: veredas, Corpo de baileResumo
O artigo considera o mito das sereias e seu canto sedutor, tal como se encontra na Odisseia, de Homero, e identifica três diferentes modulações vocais desse canto para articulá-las à linguagem poética e ao ato de narrar na obra de João Guimarães Rosa. Para isso, parte-se das anotações de um artigo do psicanalista francês Hervé Bentata, que pontua três significantes gregos que se referem à voz das sereias: phthoggos (grito, ruído ou som inarticulado); op’s (canto melodioso e feminino); aoïde (a dimensão de saber transmitida por esse canto). Apoiando-se na reflexão de pensadores da crítica literária, da filosofia e da psicanálise (principalmente Maurice Blanchot, Jeanne Marie Gagnebin e Adorno e Horkheimer), o artigo, em comemoração aos setenta anos de Corpo de baile e Grande sertão: veredas, relaciona passagens dessas obras às modulações vocais do canto mítico das sereias. Essas dimensões sonoras podem ser escutadas na vocalidade do texto literário em três registros específicos: nos gritos e ruídos do sertão, com seu ponto de vertigem próximo a um abismo vocal, inumano e animalizante; nas reverberações vocais do feminino e seu encantamento, como nos desvelamentos da voz de Diadorim e nas tonalidades maternais da personagem Lina, em “A estória de Lélio e Lina; e na importante dimensão de saber transmitida na voz e na palavra dos contadores rosianos.
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