“A colheita é comum, mas o capinar é sozinho”
microrrelatos ecumênicos e oralitura meeira em Grande sertão: veredas
DOI:
https://doi.org/10.5752/P.2358-3428.2025v29n67p545-582Palavras-chave:
“omelete ecumênico”, oralitura, espiritualidades diaspóricasResumo
Este ensaio hermenêutico analisa o polifônico romance de Guimarães Rosa, partindo de sua afirmação de que, para além da representação de uma paisagem regionalista, sua obra se concebe como um “omelete ecumênico”. Essa metáfora é o fio condutor para leva a explorar a dimensão universal e espiritual de Grande Sertão: Veredas. O estudo confronta esse pressuposto com passagens da obra, tal como aquelas em que Ribaldo anuncia sua adesão a “toda religião” e sua reflexão metapoética sobre a “colheita comum” e o “capinar sozinho”, sugerindo uma produção de sentidos compartilhada entre autor e leitor. Como referencial teórico, o texto abraça o conceito de “oralitura” para prospectar a hipótese de que Riobaldo, em sua condição de griô-bardo-rapsodo, inscreve em sua narrativa elementos simbólicos de um “ser-tão” ecumênico, espaço mítico em que o sagrado e o profano se agregam e se temperam mutuamente. A paisagem sertaneja, inicialmente regionalista, transmuta-se agora em um espaço simbólico que acolhe e representa múltiplas espiritualidades. A análise propõe que Rosa, ao conceber e plasmar verbalmente seu “omelete ecumênico”, convida o leitor a degustar oralmente um universo poético que transcende fronteiras geográficas, linguísticas, estéticas e religiosas, mesclando ingredientes votivos encontrados em toda a “terra habitada” (oikumene), reflexos privilegiados de uma experiência existencial e poética totalizante, na qual o autor-narrador, como bem define Walter Benjamin, oferece sua própria vida como matéria para a narração.
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