“O Mal e o Bem em Grande Sertão Veredas – Aproximações
DOI:
https://doi.org/10.5752/P.2358-3428.2025v29n67p149-177Palavras-chave:
Grande sertão: veredas, paradoxo, ambiguidade, Mal enquanto negatividade, Bem e MalResumo
Partindo da observação de Benedito Nunes (1998, p. 33, de que Grande sertão: veredas é um “romance mitomórfico”, propõe-se uma abordagem do Bem e do Mal (para Riobaldo, de Deus e do Diabo) neste texto marcado pela reversibilidade e ambiguidade. Nele, a figura de linguagem privilegiada é o paradoxo, que, assim como as formações mitopoiéticas, abriga a contradição, rompendo o princípio de identidade. Por meio de uma análise de texto cerrada da cena do pacto, mostra-se o quanto a ambiguidade Deus/Diabo se revela estilisticamente, levando à inquietante conclusão de que Riobaldo, em sua hybris, não quer o pacto para se vingar do Hermógenes, mas para ser “só tudo”, entestando com o Diabo... e com Deus. E nessa hybris se comprova a dimensão trágica de Grande sertão: veredas. Por outro lado, atentando para as tiradas desse teólogo sertanejo, aponta-se o Mal como Negatividade, ecoando tanto a filosofia hegeliana quanto a Cabala de Isaac Luria: respectivamente, o vazio necessário para a propulsão do Espírito (Hegel); e o vazio necessário para que algo possa ser criado (Isaac Luria) – ideia que repontará, surpreendentemente, num pensamento da filósofa Simone Weil, segundo o qual Deus, na Criação, renuncia a ser tudo. Finalmente, como último testemunho da dominância da ambiguidade e da reversibilidade, vem o endosso à ideia do Compadre Quelemem de que “comprar e vender às vezes, são as ações que são as quase iguais...” (Rosa, 1965, p. 460), ideia que encontra respaldo no pensamento de Benveniste (1966, p. 317), que mostra que no indo-europeu, comprar e vender são “noções organicamente ligadas por sua polaridade e suscetíveis de uma mesma expressão”.
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Referências
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