O exame Celpe-Bras e o ensino de português em um curso para candidatos ao PEC-G: mecanismo de política linguística em ação

  • Cynthia Israelly Barbalho Dionísio Universidade Federal da Paraíba
  • Socorro Cláudia Tavares de Sousa Universidade Federal da Paraíba
Palavras-chave: Celpe-Bras, PEC-G, Mecanismo, Política linguística, Português para falantes de outras línguas

Resumo

O objetivo do artigo é discutir como o exame Celpe-Bras atua como mecanismo de política linguística para professoras de um curso de português para candidatos ao Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G). A noção teórica de mecanismos de política linguística de Shohamy (2006; 2007; 2009) embasa a discussão dos dados gerados em entrevistas semiestruturadas. A análise da materialidade textual baseou-se na análise do conteúdo temático, da seleção lexical e dos elementos argumentativos segundo Koch (2000; 2011). A conclusão é que o Celpe-Bras atua como mecanismo de política linguística para as professoras ao transformar ideologias em práticas de ensino do que (conteúdo) e como (metodologia) ensinar. Especificamente, o exame atua sobre três eixos da prática docente: no planejamento de aulas, na metodologia de ministração de aulas e na avaliação de produções textuais dos alunos. A política linguística oficial do PEC-G estabelece o Celpe-Bras como requisito para o ingresso em Instituições de Ensino Superior (IES) brasileiras, mas não dispõe sobre currículo, formação de professores, material didático ou outros aspectos do ensino. Há prerrogativas e encargos decorrentes da atuação em contexto pautado por um exame de alta relevância, como é o Celpe-Bras para os participantes. Os programas de ensino e os próprios professores gozam de um alto grau de liberdade para criar políticas linguísticas locais visando a endereçar os pontos não cobertos por disposições oficiais ou superiores. Ao mesmo tempo, devem lidar com um possível clima de conflito emergente entre diversas ideologias e práticas quanto ao exame, decorrente da própria liberdade de criação de políticas linguísticas locais responsivas ao contexto.

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Biografia do Autor

Cynthia Israelly Barbalho Dionísio, Universidade Federal da Paraíba

Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Doutoranda em Linguística pela Universidade Federal da Paraíba (Proling/UFPB). Mestra em Linguística (Proling/UFPB).

Socorro Cláudia Tavares de Sousa, Universidade Federal da Paraíba

Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Doutora em Linguística pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Professora do Departamento de Língua Portuguesa e Linguística (DLPL) e do Programa de Pós-Graduação em Linguística (Proling) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Líder do Núcleo de Estudos em Política e Planejamento Linguístico (Nepel).

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Publicado
29-06-2021
Como Citar
Dionísio, C. I. B., & Sousa, S. C. T. de. (2021). O exame Celpe-Bras e o ensino de português em um curso para candidatos ao PEC-G: mecanismo de política linguística em ação. Scripta, 25(53), 395-430. https://doi.org/10.5752/P.2358-3428.2021v25n53p395-430