ERÊ, O ARQUÉTIPO DA CRIANÇA DIVINA NA UMBANDA uma leitura a partir dos complexos culturais

Conteúdo do artigo principal

Sônia Regina Corrêa Lages

Resumo

As pessoas filiadas ao campo religioso umbandista agregam em seu panteão espíritos de antepassados marginalizados que retornam aos terreiros para fazer caridade e orientar seus adeptos em suas aflições cotidianas. Dentre esses espíritos se destaca o da Criança, também chamado de Erê. Essa entidade encarna a memória das violências que as crianças sofreram ao longo da história até os dias de hoje. A partir desse contexto, e da teoria dos Complexos Culturais, o objetivo é analisar de que forma estes complexos foram organizados na Umbanda, e se viabilizam a expressão da imagem arquetípica da Criança Divina, o que possibilita refazer, de forma simbólica, a trajetória da infância violentada. O método utilizado foi orientado pelos pressupostos da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, e de outros autores que representam a Teoria dos Complexos Culturais, como Samuel Kimbles, Thomas Singer, Catherine Kaplinsk, Murray Stein. Os resultados desse ensaio apontam para a possibilidade da entidade da Criança atuar como transmissor de uma fonte de energia psíquica caracterizada pela futuridade e pela invencibilidade heroica e divina, tendo esse símbolo religioso a potencialidade de tornar resilientes os adeptos diante das opressões recebidas e diante de suas questões espirituais, contribuindo para com a sua saúde mental.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Detalhes do artigo

Como Citar
LAGES, Sônia Regina Corrêa. ERÊ, O ARQUÉTIPO DA CRIANÇA DIVINA NA UMBANDA: uma leitura a partir dos complexos culturais. INTERAÇÕES, Belo Horizonte, v. 21, n. 1, p. e211d07, 2026. DOI: 10.5752/P.1983-2478.2026v21n1e211d07. Disponível em: https://periodicos.pucminas.br/interacoes/article/view/35271. Acesso em: 23 jun. 2026.
Seção
DOSSIÊ - Psicologia junguiana e as espiritualidades indígenas, quilombolas e afro-brasileiras
Biografia do Autor

Sônia Regina Corrêa Lages, Universidade Federal do Rio de Janeiro

Doutora em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social pelo Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mestre em Ciência da Religião e graduada em Psicologia pela Universidade Federal de Juiz de Fora.

Referências

CAMBRAY, Joseph; CARTER, Linda. Psicologia analítica: perspectivas contemporâneas em análise junguiana. Petrópolis: Vozes, 2020.

CAPONE, Stefania. As crianças divinas: ibejis, erês e egbé orum nas religiões afro-atlânticas. In: MENEZES, Renata; FREITAS, Morena; BÁRTOLO, Lucas. Doces santos: devoções a São Cosme e Damião. Museu Nacional. Rio de Janeiro, 2020. p. 287-324.

DEL PRIORE, Mary. História das crianças no Brasil. São Paulo: Contexto, 2010.

DIAS, Júlio César Tavares. Cosme e Damião: aproximações e tensões no campo religioso brasileiro. 2017. Tese (Doutorado em Ciência da Religião) – Instituto de Ciências Humanas, Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2017.

ELIADE, Mircea. Mito e realidade. São Paulo: Perspectiva, 1972.

ELLER, Jack David. Introdução à antropologia da religião. Petrópolis: Vozes, 2018.

ESCOLA BATUQUE DE LEI. Ponto de erê/ibejada, 2017. Disponível em: https://batuquedelei.com.br/pontos-de-ere-ibejada/. Acesso em: 25 jun. 2024.

FREITAS, Morena Barroso Martins. Comida de Criança: doces (e) ibejadas da Umbanda. Religião, Sociedade e Cultura, v. 42, n. 2, p. 67-91, 2022. DOI: https://doi.org/10.1590/0100-85872022v42n2cap03.

FREITAS, Morena Barroso Martins. Doces de crianças: comida e ritual em giras de ibejadas. Natal: Equatorial, 2019. DOI: https://doi.org/10.21680/2446-5674.2019v6n11ID16527.

FUNDO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A INFÂNCIA. Pobreza multidimensional na infância e na adolescência. 2022. Disponível em: https://www.unicef.org/brazil/media/26726/file/unicef_pobreza-multidimensional-na-infancia-e-adolescencia_2022.pdf. Acesso em: 15 abr. 2024.

GÓES, José Roberto; FLORENTINO, Manolo. Crianças escravas, crianças dos escravos. In: DEL PRIORE, Mary (org.). História das crianças no Brasil. São Paulo: Contexto, 2010. p. 407-436.

HALLWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Centauro, 2006.

HILLMAN, James. Abandonando a criança. In: HILLMAN, James. Estudos de Psicologia Arquetípica. Rio de Janeiro: Archiamé Ltda., 1978. p. 19-64.

JUNG, Carl Gustav. A vida simbólica. Petrópolis: Vozes, 1988. (OC, v. 8/1).

JUNG, Carl Gustav. Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 1986. (OC, v. 8/2).

JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos do inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2000. (OC, v. 9/1).

LAGES, Sônia Regina Corrêa. Choro, riso, esperança e fé. Vovó Maria Conga sob o olhar de Carl Gustav Jung. In: LEMOS, Carolina Teles; FILHO, José Reinaldo Martins (org). Religião, espiritualidade e saúde: Os sentidos do viver e do morrer. Belo Horizonte: Senso, 2020. p. 71-83.

MALANDRINO, Brígida Carla. Há sempre confiança de se estar ligado a alguém: dimensões utópicas das expressões da religiosidade bantú no Brasil. 2010. Dissertação (Mestrado em Ciência da Religião) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2010.

MANDARINO, Ana Cristina Souza; GOMBERG, Estélio. Candomblé, corpos e poderes. Perspectivas, São Paulo, vol. 43, p. 199-217, 2013. Disponível em: https://periodicos.fclar.unesp.br/perspectivas/article/view/6618. Acesso em: 03 maio 2024.

MARCÍLIO, Maria Luiza. A roda dos expostos e a criança abandonada na história do Brasil: 1726-1950. In: FREITAS, Marcos César (org.). História social da infância no Brasil. São Paulo: Cortez, 2011. p. 53-80.

MARIOSA, Gilmara Santos; LAGES, Sônia Regina Corrêa. Mulheres negras e resiliência: aprendendo com a Orixá Oxum. INTERAÇÕES, v. 17, n. 1, p. 34-53, 2022. DOI: https://doi.org/10.5752/P.1983-2478.2022v17n1p34-53.

MONTERO, Paula. Da doença à desordem: a magia na umbanda. Rio de Janeiro: Graal, 1985.

MORAES, Mariana Ramos. Intolerância, racismo e genocídio religioso do povo negro: pensando sobre as categorias afro-religiosas das políticas do terreiro. Debates do Ner, vol. 40, p. 137-162, 2021. DOI: https://doi.org/10.22456/1982-8136.120544.

MOURÃO, Tadeu dos Santos. De médico a meninos: arte e cosmologias negras e a transformação de Cosme e Damião no Brasil. In: MENEZES, Renata; FREITAS, Morena; BÁRTOLO, Lucas (org.). Doces santos: devoções a São Cosme e Damião. Rio de Janeiro: Museu Nacional, 2020. p. 325-348.

NASCIMENTO, Wanderson Flor; SILVA, José Marmo. A saúde desde os terreiros: desafios da política nacional de saúde integral da população brasileira negra na perspectiva das religiões de matrizes africanas. Revista Calundu, vol. 6, n. 2, p. 5-18, 2022. DOI: https://doi.org/10.26512/revistacalundu.v6i2.46421.

NOGUEIRA, Sílvio. A verdade sobre a intolerância religiosa é branca: mais um dos tentáculos do racismo. In: CARNEIRO, Sueli (org.). Intolerância Religiosa: feminismos plurais. São Paulo: Jandaíra, 2020. p. 81-117.

PASSOS, Juliana. Ponto de bejada: Ele foi doutor. [S. l.]: YouTube, 8 set. 2021. 1 vídeo (2 min 30 s). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=H4W_Cl5s0VI. Acesso em: 10 abr. 2024.

PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos Orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

Silva, Maria Lúcia. Racismo no Brasil: questões para a psicanalistas brasileiros. In: KON, Noemi Moritz; SILVA, Maria Lúcia; ABUD, Cristiane Curi. O racismo e o negro no Brasil: questões para a psicanálise. São Paulo: Perspectiva, 2017. p. 71-90.

RAMOS, Fábio Pestana. A história trágico-marítima das crianças nas embarcações portuguesas do século XVI. In: DEL PRIORE, Mary. História das crianças no Brasil. São Paulo: Contexto, 2015. p. 19-54.

RESTREPO, Eduardo; ROJAS, Axel. Inflexión decolonial: fuentes, conceptos y cuestionamentos. Popayán: Universidad del Cauca, 2010.

RUFINO, Luiz. Casa de Caboclo: feitiço de brasilidade. Revista Periferia, vol. 12, n. 3, p. 53-66, 2020. DOI: https://doi.org/10.12957/periferia.2020.55179.

SANTOS, Guaraci Maximiano; ALMEIDA, Arthur Henrique Nogueira. Confluências bantu: multiplicidade, resistência e cura. Revista Calundu, vol. 2, n. 2, p. 6-29, 2018. DOI: https://doi.org/10.26512/revistacalundu.v2i2.20571.

SINGER, Thomas. A teoria do complexo cultural: modos científicos e mitopoéticos de conhecer. In: CAMBRAY, Joseph; SAWIN, Leslie (org.). Pesquisa em Psicologia Analítica: aplicações a partir da pesquisa científica, histórica e intercultural. Petrópolis: Vozes, 2021. p. 108-128.

SINGER, Thomas. Sobre os complexos culturais na psique de grupo e individual. In: PARISE, Carmen Lívia; SCANDIUCCI, Guilherme (org.). Re-imaginando um lugar de escuta: a pluralidade da clínica contemporânea e os complexos culturais. São Paulo: Sattva Editora, 2022. p. 104-139.

SINGER, Thomas; KAPLINSKY, Catherine. Complexos culturais em análise. In: STEIN, Murray (org.). Psicanálise junguiana: trabalhando no espírito de C. G. Jung. Petrópolis: Vozes, 2019. p. 54-75.

SINGER, Thomas; KIMBLES, Samuel L. A teoria emergente dos complexos culturais. In: CAMBRAY, Joseph; CARTER, Linda (org.). Psicologia analítica: perspectivas contemporâneas em análise junguiana. Petrópolis: Vozes, 2020. p. 254-291.

STEIN, Murray. Psicanálise junguiana: trabalhando no espírito de Jung. Petrópolis: Vozes, 2019.