Perseguição e repressão aos terreiros durante a ditadura civil-militar memórias, resistência e identidade afro-brasileira

Conteúdo do artigo principal

Ana Paula Mendes de Miranda
Leonardo Vieira Silva

Resumo

O artigo tem como objetivo discutir de que modo a perseguição e a repressão aos terreiros durante a ditadura civil-militar são interpretadas pela literatura e por lideranças religiosas. O foco reside numa análise comparativa dos modos pelos quais se produziu uma representação de um suposto fortalecimento da Umbanda no período, no Rio de Janeiro e em São Paulo, o que contrasta com as memórias de religiosos de quatro estados do Nordeste (Alagoas, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Sergipe), os quais relatam as estratégias policiais de perseguição aos terreiros. Concluímos que as estratégias utilizadas durante a ditadura civil-militar, fortemente influenciadas pelas práticas repressivas desenvolvidas durante o Estado Novo, são marcadas por uma ambivalência: a valorização da Umbanda está associada a um embranquecimento da tradição, que a distinguia de outras práticas religiosas marcadamente associadas às tradições africanas e indígenas. Esse fenômeno decorreu do viés ideológico da Doutrina de Segurança Nacional, a qual negava a existência de racismo e valorizava um certo tipo de nacionalismo.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Detalhes do artigo

Como Citar
MENDES DE MIRANDA, Ana Paula; VIEIRA SILVA, Leonardo. Perseguição e repressão aos terreiros durante a ditadura civil-militar: memórias, resistência e identidade afro-brasileira. HORIZONTE, Belo Horizonte, v. 23, n. 02, p. e230206, 2026. DOI: 10.5752/P.2175-5841.2025v23n02e230206. Disponível em: https://periodicos.pucminas.br/horizonte/article/view/32825. Acesso em: 20 jun. 2026.
Seção
Artigos/Articles: Temática Livre/Free subject
Biografia do Autor

Ana Paula Mendes de Miranda, UFF

Doutora em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo. Professora da Universidade Federal Fluminense. Cientista do Nosso Estado FAPERJ; Bolsista Produtividade do CNPq - 1 D. Pais de Origem: Brasil. ORCID: 0000-0003-1007-6714 E-mail: anapaulamiranda@id.uff.br.

Leonardo Vieira Silva, UFF

Doutor em Antropologia pela Universidade Federal Fluminense (2026), Mestre em Antropologia pela Universidade Federal Fluminense (2020). Pais de Origem: Brasil. ORCID: 0000-0002-8711-5761. E-mail: vieira_leonardo@id.uff.br.

Referências

ALMEIDA, João Paulo Martins de. “Deus, pátria, família”: os sentidos do fascismo brasileiro. Revista Rua. Campinas, v. 28, n. 2, p. 353-376, 2022.

ALVES, Gustavo G. A. Alves. Da Coleção Magia Negra ao Acervo Nosso Sagrado: nuances entre o saque, o tombamento e a reparação. Abe África: revista da associação brasileira de estudos africanos. Rio de Janeiro, v. 8, n. 8, p. 228-261, 2023.

A NOITE. II Congresso de Umbanda Quer Codificar Doutrina. Rio de Janeiro, p. 3, 17/07/1961.

BIRMAN, Patrícia. O que é Umbanda. São Paulo: Brasiliense, 1995.

BRANDÃO, Lucas Coelho. A literatura sobre Movimentos Sociais: Interações entre política institucional e a política não institucional. BIB, São Paulo, nº 71, p. 123-143, 1º semestre de 2011.

BRASIL. Congresso Nacional. João Goulart: Sessão solene do Congresso Nacional: devolução simbólica do mandato presidencial, 18/12/2013. Brasília: Senado Federal, 2013. Disponível em: https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/496936/001003248.pdf. Acesso em: 29 mar. 2024

BROWN, Diana. Umbanda e política. Rio de Janeiro: ISER/ed. Marco Zero, 1985.

CAMARGO, Candido Procópio Ferreira de. Kardecismo e umbanda. São Paulo: Pioneira, 1961.

CANDAU, Joel. Antropología de La Memoria. Buenos Aires: Nueva Visión, 2002.

CAPONE, Stefania. A busca da África no Candomblé: tradição e poder no Brasil. Rio de Janeiro: Pallas, 2004.

CARVALHO, José Jorge de. O estudo das religiões afro-brasileiras: problemas teóricos e metodológicos. Revista Brasileira de Ciências Sociais. São Paulo, v. 13, n. 37, p. 35–47, 1998.

CIDADANIA discute perseguição contra religiões de matriz africana durante o regime militar. Assembleia Legislativa do Estado de Pernambuco, Recife, 28 nov. 2016. Disponível em: https://www.alepe.pe.gov.br/2016/11/28/comissao-de-cidadania-discute-perseguicao-contra-religioes-de-matriz-africana-durante-o-regime-militar/. Acesso em: 29 mar. 2024.

COELHO, Renato. “Não temo quebrantos porque eu sou guerreira”: o legado de Clara Nunes. Jornal da Unesp, 28 abr. 2023. Disponível em: https://jornal.unesp.br/2023/04/28/nao-temo-quebrantos-porque-eu-sou-guerreira-o-legado-de-clara-nunes/. Acesso em: 29 mar. 2024.

DANTAS, Beatriz Góis. Vovó Nagô e Papai Branco: usos e abusos da África no Brasil. Rio de Janeiro: Graal, 1988.

DAVIS, Shelton H. Vítimas do Milagre: o desenvolvimento e os índios do Brasil. São Paulo: Zahar, 1978.

FERREIRA, Isabelle de Oliveira. Povos Banto no Brasil: os elos entre as Calungas de Maracatu-Nação e as esculturas Minkisi. In: ENCONTRO ESTADUAL DE HISTÓRIA DA ANPUH-BA, 10., 2020, Vitória da Conquista. Anais eletrônicos [...]. Vitória da Conquista: ANPUH-BA, 2020. p. 5. Disponível em: https://www.encontro2020.bahia.anpuh.org/resources/anais/19/anpuh-ba-eeh2020/1604064709_ARQUIVO_1bbeb067241aae60a1a572f76ff4aa5a.pdf. Acesso em: 29 mar. 2024.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 2. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1979.

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. Tradução de Laurent Léon Schaffter. São Paulo: Vértice, 1991

INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL. Obá Ogunté (Sítio de Pai Adão/PE) pode se tornar Patrimônio Cultural do Brasil. Portal Iphan, Brasília, 14 set. 2018. Disponível em: http://portal.iphan.gov.br/noticias/detalhes/4820/oba-ogunte-sitio-de-pai-adao-pe-pode-se-tornar-patrimonio-cultural-do-brasil. Acesso em: 30 mar. 2024.

J. M. ALVES. In: DICIONÁRIO Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Rio de Janeiro: Instituto Cultural Cravo Albin, [2021]. Disponível em: https://dicionariompb.com.br/artista/j-m-alves/. Acesso em: 29 mar. 2024.

LANCMAN, Thais. Militares ligados à umbanda pouparam terreiros durante a ditadura. Portal da Câmara Municipal de São Paulo, São Paulo, 14 maio 2013. Disponível em: https://www.saopaulo.sp.leg.br/blog/militares-ligados-a-umbanda-pouparam-terreiros-durante-a-ditadura/. Acesso em: 29 mar. 2024.

MAGGIE, Yvonne. O Medo do Feitiço: relações entre magia e poder no Brasil., Rio de Janeiro: Arquivo Nacional/Ministério da Justiça, 1992.

MELO, Aislan Vieira de. Reafricanização e dessincretização do candomblé: Movimentos de um mesmo processo. Revista ANTHROPOLÓGICAS. Recife, ano 12, volume 19(2): 157-182, 2008.

MENDES, Andrea. O Rei do Candomblé nas Páginas da Revista: Joãozinho da Goméia em O Cruzeiro (1967). Recôncavo: Revista de História da UNIABEU. Nova Iguaçu/RJ, v. 4, n. 6, p. 58-78, 2014.

MIRANDA, Ana Paula Mendes de. A 'Política dos Terreiros' contra o Racismo Religioso e as Políticas 'Cristofascistas'. Debates do NER. Porto Alegre, v. 40, p. 1 - 27, 2021.

MIRANDA, Ana Paula Mendes de. Multidimensionalidade dos Conflitos e seus Efeitos na Produção de Políticas (de “Terreiros/”Cristofascistas”): Algumas Respostas, Outras Questões. Debates do NER. Porto Alegre, v. 40, p. 1 - 17, 2021a.

MIRANDA, Ana Paula Mendes de; ALMEIDA, R. R. Os efeitos da política de “Deus acima de todos”. Revista online da Fundação Astrojildo Pereira. Brasília, 2021. Disponível em: https://www.fundacaoastrojildo.org.br/rpd-ana-paula-miranda-e-rosiane-rodrigues-de-almeida-os-efeitos-da-politica-de-deus-acima-de-todos/ Acesso em: 29 mar. 2024.

MIRANDA, Ana Paula Mendes de; BAHIA, Joana D. V.; CORRÊA, Roberta de Mello. Apresentação: Religiões afro-brasileiras e a expansão das fronteiras: desafios interpretativos sobre a produção do sagrado e das identidades religiosas na contemporaneidade. Antropolítica: Revista Contemporânea de Antropologia, n. 48, p. 8-39, 2020.

MIRANDA, Ana Paula Mendes de; MUNIZ, Jacqueline de Oliveira; ALMEIDA, Rosiane Rodrigues de; CAFEZEIRO, Fausto. Terreiros sob ataque? A governança criminal em nome de Deus e as disputas do domínio armado no Rio de Janeiro. Revista Dilemas IFCS-UFRJ. Rio de Janeiro, v.15, p.619 - 650, 2022.

MORAIS, Mariana Ramos de. De religião a cultura, de cultura a religião: travessias afro-religiosas no espaço público. Belo Horizonte: Editora PUC Minas, 2018.

MORAIS, Mariana Ramos de. “Não Calarão Nossos Atabaques”: A Luta dos Afrorreligiosos por seus Direitos no Âmbito das Políticas Públicas. In: Ana Paula Mendes de Miranda, Ilzver de Matos Oliveira, Lana Lage da Gama Lima (org.). As tramas da intolerância e do racismo. Rio de Janeiro: Telha, 2023.

MOTT, Luiz. Transgressões na calada da noite: um sabá de feiticeiras e demônios no Piauí colonial. Textos de História. Brasília, v. 14, p. 57-84, 2006.

NASCIMENTO, Nadine. Candomblé, Umbanda e Ditadura: reconhecimento e perseguição. Terra, 31 mar. 2022. Disponível em: https://www.terra.com.br/nos/candomble-umbanda-e-ditadura-reconhecimento-e-perseguicao,46590208909b5197eac8b0f42f3a5d6af5x2t4lo.html. Acesso em: 29 mar. 2024.

NUNES, Átila. Melodias de Terreiro: uma conexão viva com a nossa história. Axé News, 23 out. 2023. Disponível em: https://www.axenews.com.br/post/melodias-de-terreiro-uma-conex%C3%A3o-viva-com-a-nossa-hist%C3%B3ria. Acesso em: 29 mar. 2024

OLIVEIRA, Maria Rita de Cassia. Mironga: Extermínio, Estado e Diversidade dos Povos de Terreiros na Construção da Democracia nos Anos 60/70 No RN. ANAIS DA 29ªRBA. Natal, 2014. Disponível em: http://www.29rba.abant.org.br/resources/anais/1/1402017566_ARQUIVO_MIRONGA29RBAMARIARITA.pdf Acesso em: 29 mar. 2024.

OLIVEIRA, Nathália Fernandes de. A Repressão Policial às Religiões de Matriz Afro-Brasileiras no Estado Novo (1937-1945). Niterói, 2015. 173 f. Dissertação (Mestrado em História) - Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal Fluminense.

ORTIZ, Renato. A Morte Branca do Feiticeiro Negro: Umbanda e Sociedade Brasileira. Petrópolis: Vozes, 1978.

PIRES, Thula R. DE O. Estruturas Intocadas: Racismo e Ditadura no Rio de Janeiro. Revista Direito e Práxis. Rio de Janeiro, v. 9, n. 2, p. 1054–1079, 2018.

POLLAK, Michel. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, p. 3-15, 1989.

POLLAK, Michel. Memória e identidade social. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 5, n. 10, p. 200-212, 1992.

PRANDI, Reginaldo. O Brasil com axé: candomblé e umbanda no mercado religioso. Estudos Avançados. São Paulo, v. 18, n. 52, p. 223–238, 2004.

RAFAEL, Ulisses Neves. Muito barulho por nada ou o “xangô rezado baixo”: uma etnografia do “Quebra de 1912” em Alagoas, Brasil. Etnográfica, Lisboa, v. 14, n. 2, p. 289-310, jun. 2010.

REIS, Daniel Aarão. Ditadura militar, esquerdas e sociedade. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.

SOM DA RESISTÊNCIA: músicas de blocos afro passaram pela censura por exaltar o povo negro. Alma Preta Jornalismo, São Paulo, 9 fev. 2024. Disponível em: https://almapreta.com.br/sessao/cultura/som-da-resistencia-musicas-de-blocos-afro-passaram-pela-censura-por-exaltar-o-povo-negro/. Acesso em: 29 mar. 2024.

SOUZA, Fabíola Amaral Tomé de. Umbanda e Ditadura Civil-Militar: relações, legitimação e reconhecimento. Revista Angelus Novus. São Paulo, Ano VII, n. 11, p. 13-32, 2016.

SOUZA, Laura de Mello. O diabo e a terra de Santa Cruz. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

VIEIRA SILVA, Leonardo. Nem impuro, nem misturado: a construção do Nagô afro-sergipano da “Sociedade de Culto Afrobrasileiro Filhos de Obá” (SCAFO) e suas estratégias político-religiosas. Niterói, 2020. 100 f. Dissertação (Mestrado em Antropologia) - Programa de Pós-Graduação em Antropologia Universidade Federal Fluminense.

WESTIN, Ricardo. Há 50 anos, ditadura derrubava governador de São Paulo. Senado Notícias, Brasília, 6 jun. 2016. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2016/06/06/ha-50-anos-ditadura-derrubava-governador-de-sao-paulo. Acesso em: 29 mar. 2024.

WERNECK, Jurema. O livro da saúde das mulheres negras. Rio de Janeiro: Pallas, 2007.