“Primeiro como tragédia e depois como farsa”: marchas religiosas e a urdidura do discurso conservador no Brasil
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Resumo
O presente artigo tem como objetivo analisar a forma como o discurso religioso conservador promove uma mobilização de significados que dão sentidos a afetos sociais, especialmente em momentos de intensas mudança econômicas e sociais. Entendemos que, assim como o discurso da Teologia da Libertação, urdido a partir da realidade latino-americana, significou a mobilização de uma série de significantes vazios que contribuíram para urdidura de diversos movimentos sociais igualitários, os discursos teológicos conservadores também ocuparam esse papel, porém, tenderam a ser eficazes em tempos disruptivos, uma vez que conseguem mobilizar afetos como medos e ressentimentos. Neste sentido, abordaremos as Marchas da Família com Deus pela Liberdade que precederam o Golpe Cívico-Militar de 1964 e, como guisa de conclusão, avançaremos algumas palavras sobre a mobilização discursiva religiosamente situada em curso no Brasil atual. Neste sentido, acreditamos poder demonstrar: 1. O discurso católico pode ganhar contornos conservadores em determinados momentos históricos, especialmente se sua publicização estiver atrelada à mobilização de seu discurso como gramática para nomear anseios, angústias e ressentimentos; 2. Ainda que apareçam como demiurgos principais da atual onda conservadora, os evangélicos e seu discurso religioso aparecem muito mais como máquinas de ressonância do que lugar de emanação inicial do discurso conservador.
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