“Primeiro como tragédia e depois como farsa”: marchas religiosas e a urdidura do discurso conservador no Brasil

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Paulo Gracino Junior

Resumo

O presente artigo tem como objetivo analisar a forma como o discurso religioso conservador promove uma mobilização de significados que dão sentidos a afetos sociais, especialmente em momentos de intensas mudança econômicas e sociais. Entendemos que, assim como o discurso da Teologia da Libertação, urdido a partir da realidade latino-americana, significou a mobilização de uma série de significantes vazios que contribuíram para urdidura de diversos movimentos sociais igualitários, os discursos teológicos conservadores também ocuparam esse papel, porém, tenderam a ser eficazes em tempos disruptivos, uma vez que conseguem mobilizar afetos como medos e ressentimentos. Neste sentido, abordaremos as Marchas da Família com Deus pela Liberdade que precederam o Golpe Cívico-Militar de 1964 e, como guisa de conclusão, avançaremos algumas palavras sobre a mobilização discursiva religiosamente situada em curso no Brasil atual. Neste sentido, acreditamos poder demonstrar: 1. O discurso católico pode ganhar contornos conservadores em determinados momentos históricos, especialmente se sua publicização estiver atrelada à mobilização de seu discurso como gramática para nomear anseios, angústias e ressentimentos; 2. Ainda que apareçam como demiurgos principais da atual onda conservadora, os evangélicos e seu discurso religioso aparecem muito mais como máquinas de ressonância do que lugar de emanação inicial do discurso conservador.

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Como Citar
PRESOT, Aline Alves; GRACINO JUNIOR, Paulo. “Primeiro como tragédia e depois como farsa”: marchas religiosas e a urdidura do discurso conservador no Brasil. HORIZONTE - Revista de Estudos de Teologia e Ciências da Religião, Belo Horizonte, v. 22, n. 68, p. e226807, 2025. DOI: 10.5752/P.2175-5841.2024v22n68e226807. Disponível em: https://periodicos.pucminas.br/horizonte/article/view/32834. Acesso em: 31 ago. 2025.
Seção
Artigos/Articles: Dossiê/Dossier
Biografia do Autor

Aline Alves Presot, UFMG

Doutoranda em História e Culturas Politicas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Pais de Origem: Brasil. ORCID: 0009-0002-7403-0723. E-mail: alinepresot@gmail.com.

Paulo Gracino Junior, Universidade de Brasília

Doutor em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Professor do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília. Pais de Origem: Brasil. ORCID: 0000-0002-6764-4797. E-mail: paulo.gracino@unb.br.

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